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O-Sensei
Morihei Ueshiba
(1883-1969)
Fundador do Aikido

ENTREVISTA

 


com
Christian Tissier Shihan

por Leo Tamaki

A BUSCA DA PERFEIÇÃO 

Traduzido por Yves Tocquer

Não é mais necessário apresentar Christian Tissier. Aos 18 anos, ele viajou para o Japão. Inicialmente para passar seis meses, acabou ficando sete anos, e se tornou um dos mais famosos senseis da nossa época. Ele aceitou responder as nossas perguntas sobre seu percurso, a prática e o mundo do Aikido. Entrevista sem papo furado. 

Você viajou para o Japão aos 18 anos, foi uma grande decisão para alguém dessa idade.

(risos) É preciso relembrar o contexto. Em 68 muitos eventos tinham acontecido (NT: muitas greves e protestos na França em particular). Desde então as pessoas viajavam para Katmandu – no Nepal, para a Índia ou para o México. Eu também tinha vontade de viajar antes de começar os estudos superiores, e decidi ir para o Japão. Já praticava Aikido e achava que passar seis meses lá seria bom. 

Como muitas pessoas, meus pais não tinham muito dinheiro, então tive que acumular pequenos empregos para comprar a passagem. Assim que consegui o dinheiro, peguei um bilhete pelo trem transiberiano. Não dá para perceber hoje em dia, mas na época, era impensável viajar de avião, só tinha um vôo por semana pela Air France. Então fiz três semanas de trem e cheguei em Tókio. 

Nessa época a distância implicava uma verdadeira separação. Teve momentos de solidão?

Tiveram alguns momentos difíceis, mas não muitos. É provavelmente uma questão de idade e de personalidade. Eu era novo, muito aberto e curioso. 

Fui bem acolhido no Aikikai. No início, foi um pouco estranho porque as pessoas não sabiam quem eu era, o que eu estava fazendo. Nessa época tinham muito poucos estrangeiros, um garoto que chegava assim, chamava atenção. O Doshu se perguntava se eu era filho de diplomata ou de empresário. 

Quando cheguei tinham muito poucos franceses. E todos vinham para o Budo. Era uma comunidade, todo mundo se conhecia, quer fossem praticantes de Karate, Judo ou Kendo. 

Não é mais o caso agora, mesmo dentro do Aikido as pessoas se conhecem pouco. Têm alguns grupos, as pessoas se gostam ou não. Na época, éramos tão poucos que a gente se encontrava em todo lugar e criamos uma amizade que continua até hoje. Então os momentos de solidão foram poucos, mas francamente, o lado material foi o mais difícil no início. Eu não tinha dinheiro porque era jovem demais para ter credibilidade como professor de francês. Mas tive um pouco de sorte. Tenho olhos muitos claros, azul-verde, era mais magro do que agora, não tinham muitos estrangeiros e trabalhei bastante na moda como modelo. Hoje em dia, provavelmente, não seria possível, porque tem profissionais verdadeiros, mas na época, trabalhei bastante assim, o que me permitiu ficar no Japão. 

A sorte continuou depois, e me tornei professor de francês em diversas instituições até ser contratado pelo instituto franco-japonês para um cargo que me permitiu treinar tanto quanto eu queria, com poucas horas de trabalho. 

Em geral os japoneses olham para os estrangeiros chegando num Dojo com uma mistura de suspeição e curiosidade. Quando você sentiu que era integrado?

Tinham curiosidade, realmente, mas não que eu tenha percebido na época. É pensando nisso agora que estou percebendo como foi.


Ia a todas as aulas. Porque estava apaixonado, obviamente, mas também não tinha mais nada para fazer, porque não tinha um centavo quando cheguei. Treinava de manhã, treinava às 3 da tarde, ficava até a noite. Então, rapidamente fiquei conhecendo as pessoas. 

Eu era Nidan na época, mas francamente não tinha um bom nível. (risos) Tinha que rever tudo, mas não era iniciante, sabia receber, sabia me proteger. Rapidamente fiquei amigo dos uchi deshis da época. Endo, Suganuma, Toyoda que faleceu. Yasuno também, Miyamoto chegou mais tarde e Osawa sensei, Yokota sensei. Foi uma época em que se formaram os principais professores do Aikikai de hoje. 

Também trabalhei bastante com alguém que tinha uma faixa branca na época, Moriteru Ueshiba. Então o pai dele cuidou de mim, junto com Yamaguchi sensei. Depois disso, comecei a ser o uke do Doshu uma vez por semana, depois duas vezes, e após um ano, eu era um dos seus principais ukes. Também recebi a responsabilidade de cuidar dos alunos estrangeiros, o que me permitiu colocar um pequeno símbolo no meu keikogi. (risos) Todo mundo trabalhava desse jeito no Aikikai em volta do Doshu, do Yamagushi sensei. Então não teve um momento particular de qual eu me lembro, porque tudo aconteceu muito naturalmente. 

Você acha necessário ir ao Japão para treinar?

É uma pergunta um pouco difícil. Acho que agora, alguns países como a França, têm um bom nível técnico, então, não é mais necessário. Mas pode ser interessante ir depois de um certo nível, caso tenha alguém cuidando de você lá. 

O problema das pessoas que vão ao Japão, é que muitas vezes são flexíveis, sabem se mexer um pouco, mas não tem nenhuma construção. Francamente, muitas vezes quando eles voltam, não os acho bons. Quando você observa os uchi deshis trabalharem no Aikikai, o jeito de trabalhar não parece nem um pouco com o dos outros praticantes. Eles são muito rigorosos. Porque fora das aulas, eles são ensinados a fazer assim. 

Eu tive a sorte de ter sido cuidado pelo Doshu e por Yamaguchi sensei, e de ser o amigo de Saotome sensei. Eu era novo, eles gostavam de mim. Acho que eles percebiam em mim alguma coisa da qual gostaram. Então eles não deixavam de me corrigir. Me ensinaram como se ensina a um futuro profissional. O que não é o caso para a maioria das pessoas. Conheço alguns que ficaram vinte anos no Japão, com quem é bastante agradável praticar, mas que não têm uma estrutura, nem no corpo, nem na técnica. É o risco de ir para o Japão sem introdução. 

É um pouco duro dizer isso, mas sem introdução você é um turista. Tudo ocorre bem, os senseis são legais, eles o chamam para ser uke, mas não o consideram como alguém que vai representar um dia o Aikikai, a formação não é profunda.

Isso sendo dito, o Aikikai é muito interessante porque abre a mente no nível da técnica. Tem um conjunto de professores, e cada um tem uma forma diferente, mas correta. Não se pode ir lá e depois falar "É assim e não pode ser diferente". Quando se observa Osawa sensei praticar de certa maneira, e X ou Y praticar de outra, a gente entende que os mesmos princípios são expressos com formas diferentes. 

Na época eu estudava com vários mestres sem ter dificuldade. Agora as pessoas se apegam a uma forma e não aos princípios. Eu posso entender isso porque passei por isso também. No meu segundo dia no Japão fui à aula do Doshu. Eu observei o irimi nage dele e pensei: "o que ele esta fazendo? ele está dando passinhos, é muito ruim..." E assim você entende que as imagens que eu tinha, minha referência, o que eu achava bom, é o que sempre tinha visto. Não conseguia ver que ele era flexível e móvel. Minhas referências eram limitadas pela minha falta de conhecimento. 

Como explicar que você ia a todas as aulas? Você considera importante ver ensinamentos diferentes?

Estou voltando de um seminário nos Estados Unidos onde éramos vários senseis, dentre eles, Ikeda Hiroshi. Temos a mesma idade, estudamos bastante juntos no Aikikai, mas há algum tempo que eu não o encontrava. Ele desenvolveu uma forma de Aikido realmente muito especial, é a forma dele. Com movimentos muito curtos, o corpo um pouco dobrado. Não é o que eu quero fazer no nível técnico, mas é completamente lógico e funciona muito bem. Tive muito interesse e aprendi muito com ele, mesmo se a minha forma é diferente. Na medida em que estamos capazes de reconhecer um ensino sério, é interessante se abrir para entender outras formas, mas tem que tomar cuidado para não se perder tentando integrar tudo o tempo todo, porque não se pode mudar toda hora a forma do corpo e do trabalho. 

Durante a sua estadia no Japão você treinou o kick boxing no Meïjiro Gym de Tokyo. O que isso trouxe para você?

Na época eu estava com um amigo chamado Lilou Nadenicek, que praticava o Aikido e o Karate. A gente era novo, e íamos assistir combates de kick boxing, que estavam muito na moda. Chegou um momento em que criamos, com todos os franceses praticantes de artes marciais, um encontro semanal no domingo de manhã, no jardim do instituto franco japonês. Decidimos que todos que queriam lutar se encontrariam nesse lugar, colocávamos luvas, proteções e lutávamos. Rapidamente a gente percebeu que cada disciplina tinha qualidades e lacunas. 

Um dia, com Lilou, decidimos visitar uma academia. Foi a Meijiro Gym, mas poderia ter sido outra qualquer. Quando chegamos, tinham dois caras treinando, Shima, campeão do Japão, e Fujiwara, que era o maior lutador da época. Depois chegou o Kurosaki, um dos melhores lutadores do Kyokushinkaï. Foi engraçado, porque a gente foi falar com Shima, ele estava sentado numa mesa e perguntou o que a gente queria. É preciso imaginar o ambiente, tínhamos que entrar, gritar "oss", tirar os sapatos, o casaco, se aproximar e esperar que ele falasse. Todo um ritual. Meu amigo vinha do Karate, felizmente ele sabia disso tudo. E Shima perguntou "O que vocês estão querendo?" A gente responde que queria se inscrever. "Ah é? Porquê?". "É que a gente queria treinar um pouco." "Ah é? vocês são americanos?". E assim, por 15 minutos ele ficou perguntando coisas sem nenhum sentido... e cada vez, porque, porque? Depois de um tempo fiquei olhando para o meu amigo e falei "será que ele é bobo?". 

Na realidade, ele não entendia o que a gente queria fazer, não conseguia imaginar o que a gente poderia fazer ali. Hoje em dia tudo mudou e ninguém ficaria surpreso assim. Ele nos colocou frente a um espelho, ele mostrou o passo "um-dois" e voltou à sua mesa. Depois de meia hora a gente achou que ele ia ensinar outra coisa, e parou. Então ele gritou "Heeee !" para a gente continuar. A gente voltou no dia seguinte. Foi assim que começou .

Suponho que o ambiente era muito diferente do Aikikai 
O ambiente era muito particular. Quando a gente chegava, tinha que lavar o chão mesmo quando o cara que estava saindo tinha acabado de fazê-lo, depois, tinha que gritar "Oss, keïko onegaï shimasu!". Aí tinha que pular corda, bater num saco e às vezes, alguém vinha explicar alguma coisa, ou não. Acabamos bastante amigos, principalmente com Fujiwara que é um cara realmente muito simpático. É um artista, só ele podia fazer o que ele fazia. 

A gente foi assistir torneios, fez alguns combates. Isto me permitiu perceber que não é com um chute ou um soco que se mata alguém, me permitiu relativizar, entender que, como o Shima falava, o saco é o único que não devolve os golpes, que mesmo quando um adversário é mais fraco, nunca se sabe. E me deu uma certa confiança. Isto me ajudou bastante também quando eu voltei para a França. Tinha um amigo, Jean-Pierre Lavoratto, que treinava com a seleção francesa de Karate. Cheguei uma manhã e ele me apresentou para o grupo, "É ele quem vai dar as aulas de Aikido". Comecei a correr e treinar com eles todas as manhãs. Mostrava algumas coisas e me respeitaram como aikidoka. Levava golpes e dava também. 

A prática do Aikido o ajudou no kick boxing ou não?

No início não, pelo contrário porque eu tinha tendência a me esquivar, o que me ajudou foi o kenjutsu. No Kashima shin ryu tem um golpe direto, com um início muito rápido e usei isso muito. Eu me posicionava um pouco como em waki gamae e jogava a mão um pouco como jogaria uma espada. Derrubei muita gente assim. (risos) Mas graças ao Aikido eu tinha uma melhor visão sobre algumas coisas. Por exemplo, conseguia perceber melhor a trajetória dos mawashi geris. 

No seu ponto de vista, qual é a especificidade do Aikido, o que o diferencia das outras práticas marciais?

Têm vários pontos. Primeiro, tem o lado educativo. O Aikido é um sistema de educação com um suporte que é a arte marcial. Depois tem o lado técnico. No Aikido existem princípios e qualidades. As qualidades são mais inatas e os princípios tem que ser adquiridos. Os reflexos são uma qualidade, se a gente os tem, muito bem, se não, paciência. O shisei, por outro lado, é um principio. A visão, a distância, o ma-aï, é um princípio. A busca da maior eficiência com um esforço mínimo é um princípio. Para que o Aikido funcione todos os princípios tem de estar presentes. Quanto mais eles estão presentes, mais a técnica será perfeita. 

O ponto importante que diferencia o Aikido da maioria das artes marciais é que os princípios são os elementos essenciais da técnica e não podem ser substituídos pelo trabalho das qualidades. Não é possível se satisfazer com uma técnica que funciona de forma relativa graças a qualidades físicas como força ou velocidade. 

Enfim, tem o aspecto espiritual. Nishio dizia que o Aikido era o yurusu Budo, o Budo do perdão. E é isso, muito mais que o resto, a especificidade do Aikido. A noção de respeito à integridade. A sua, obviamente, mas sobretudo, a do parceiro. 

A busca do Aikido é a busca do movimento puro, apesar das agressões que são os ataques dos adversários, respeitando uma ética com altas aspirações. A maioria dos Budos fala para agir só para se defender, mas a idéia de se defender preservando o seu parceiro é específica ao Aikido. 

Você considera que o trabalho com as armas faz parte da prática do Aikido?

Fundamentalmente, não. Mas vou explicar mais o meu ponto de vista. 

No Hombu Dojo, como você sabe, não tem curso com armas, ponto final. Tem alguns bokkens, se quiser fazer alguns suburis, mas não se pode fazer demais, e principalmente, é ruim não trabalhar com um parceiro. 

Eu sempre fui muito interessado pelo espírito do ken, esse jeito de entrar de frente na ação específica do kenjutsu, não de forma circular. E eu tive a sorte de ter sido formado no kenjutsu, por Inaba sensei, no Shiseïkan. 

Mas eu não acho que seja necessário trabalhar com armas para fazer Aikido. É bom fazer um pouco porque é um suporte lúdico, que ensina a gerenciar uma outra distância. Mas se pode dizer isso também do boxe ou das disciplinas que usam os pés. São suportes que podem trazer algumas coisas, que são interessantes, mas que não são a essência do Aikido.

Sempre ensino ken nos meus seminários de uma semana porque muita gente se interessa, mas é uma coisa a mais, não é o essencial. Não tenho nada contra aqueles que desenvolvem sistemas de armas, mas o Aikido é o Aikido. As armas podem fazer parte, mas pode ter alguém que nunca praticou o ken na vida dele, e que pratica um Aikido correto com as mesmas sensações. 

Você acha que o Aikido tem que evoluir na sua forma e suas técnicas?

Sim, acho. Como toda coisa, um Aikido que não evolui é um Aikido morto. No Aikido as técnicas de base são katas. É indispensável que todo mundo aprenda essas bases. Depois, tem as aplicações. E a partir daí, felizmente, vão ter pessoas que vão sempre mais longe. Que vão criar, ter uma idéia mais fina da coisa e trazer uma evolução. É por isso, eu acho, que O Sensei nunca falou que o Aikido era completo.

Quando vejo o que pessoas como Yamaguchi sensei trouxeram para o Aikido, do ponto de vista da liberdade, eu acho isso excepcional. Se a gente acha que "O meu professor era o melhor, e agora eu sou o melhor depois dele, mas vocês nunca serão tão bons quanto eu sou.", isso não leva a lugar nenhum, não faz sentido. Obviamente tem que ser muito rigoroso com as bases e os princípios, mas toda coisa evolui, é um processo natural e não há porque o Aikido não evoluir. 

Você acha que tem fundamentos inalteráveis?

O que é inalterável e primordial é a busca dos princípios, da pureza no movimento e no coração. A técnica não é inalterável. O que é preciso entender é a finalidade de uma técnica ou de um tipo de trabalho. A gente pode imaginar que um dia outras técnicas sejam desenvolvidas, outras formas de trabalho, permitindo desenvolver tão bem ou até melhor o efeito, a qualidade do princípio pesquisado. 

Você acha que a prática do Aikido tem que evoluir com a idade?

O Aikido é a minha vida. Tenho cada vez mais prazer em praticar, cada vez mais entusiasmo. Mas, realmente, sinto que não tenho mais as mesmas qualidades que quando tinha 20 anos, é natural. Eu acho que se a pessoa orientou o seu trabalho em direção a uma prática justa, baseada na técnica e nos princípios fundamentais, o seu desempenho vai melhorar com o tempo. O erro é não querer envelhecer, e querer ficar com uma prática baseada nas qualidades físicas que vão inevitavelmente diminuir.

Tem dias em que me sinto em forma, vou tomar dois comprimidos de aspirina, trabalhar feito um garoto, mexer muito, cair, trabalhar o físico, mas no dia seguinte vou ter que pagar por isso. (risos) 

Ao contrário, com uma técnica precisa não se perde velocidade. Vai afinando, vai aprendendo com a experiência a sair no momento certo com um esforço mínimo. É isso que permite se tornar ainda mais eficaz com a idade. 

Você viaja muito, você percebe diferenças culturais na forma de abordar o Aikido?

Um problema que volta muito é o da saudação de joelhos. Como você sabe, na religião muçulmana, as pessoas só se prosternam diante de Allah. E a saudação japonesa é muito próxima disso. Por isso muitos praticantes muçulmanos não o fazem. 

Quando vou à Algéria, por exemplo, muitas vezes sou o único a fazer a saudação. É uma situação difícil, porque eles são simpáticos, mas é difícil fazê-los entender que é só ter consciência que antes da gente, teve uma longa transmissão que aconteceu. Eu tenho alunos muçulmanos que não fazem a saudação. Não me incomoda muito, mas acho que é devido a uma falta de entendimento do gesto. 

Às vezes me pergunto como eles fariam se fossem ao Japão. Eles poderiam achar um sensei, num pequeno Dojo que entenderia a situação, mas no Kyokushinkaï, por exemplo, eles seriam mandados embora depois de terem levado uma surra. 

Por outro lado, tem praticantes ocidentais que nunca foram ao Japão, e que fazem a saudação shinto que nem é praticada no Aikikai. 

Para mim a saudação tem duas funções. Primeiro, como eu já disse, agradecer a todas as pessoas que formaram a cadeia de transmissão até a gente. Segundo, serve para ordenar o seu corpo e o seu espírito. É uma preparação para a prática. 

No Aikikai eu entrava e saia com freqüência do Dojo, por uma razão ou outra. Às vezes eu entrava para buscar um bokken, por exemplo, e eu cumprimentava de forma um pouco rápida. Então eu falava para mim mesmo "deixa o bokken, cumprimenta de novo corretamente". Tem também a função de não deixar as coisas muito soltas. 

O que representa o ki para você?

A vida, o sopro de vida que está presente em todas as coisas. O problema do ki é o seu fluxo. Se o ki não esta fluindo naturalmente, a gente adoece, bioki.

Você pratica exercício do tipo chi-kung?

Eu tenho imenso respeito pelo chi-kung, o Tai chi. Mas eu acho que o propósito deles esta no fluxo do ki e acho que o Aikido também o proporciona, sob outra forma, mas que é suficiente.

Em algumas palavras como você definiria os seguintes mestres: 

Morihei Ueshiba

Eu diria - uma pessoa fora do seu tempo, mas com uma mensagem que pertence ao futuro. 

Kisshomaru Ueshiba

É o respeito, o rigor, aquele que permitiu que o Aikido fosse o que ele é hoje no mundo. É aquele que aceitou o segundo lugar, que foi contestado, que assumiu a sucessão. Para mim é realmente a imagem da responsabilidade. 

E os outros não foram muito simpáticos. Todos os outros, francamente. As pessoas que hoje são os mestres do Aikido não são somente os alunos de O Sensei. São antes de tudo alunos de Kisshomaru. Não foi O Sensei que com 70 anos os ensinou a cair, os ensinou ikkyo, nikkyo... Eles são valorizados pelo fato de terem conhecido O Sensei, com certeza, mas aquele que realmente era presente, quem ensinou, foi Kisshomaru. 

Foi também Kisshomaru quem deu uma boa imagem do Aikido em todos os aspectos, que o desenvolveu. E ele se investiu muito. 

Eu posso falar disso porque em 1980 quando aconteceu o primeiro congresso mundial da FIA em Paris, tinha o filho Osawa, Moriteru e eu. Éramos três ukes. Estávamos no vestiário e quando eu o vi trocar de roupa, ele não chegava a pesar 40 kilos, depois da sua cirurgia. E quando ele entrou no tatame foi a dignidade, foi admirável. Ele tinha uma mensagem a transmitir e ele veio. Mais ninguém teria feito isso. Um grande respeito por um mestre que foi subestimado por tempo demais. 

Moriteru Ueshiba

Eu tenho muita esperança nele porque é um bom aikidoka, ele é moderno e inteligente. É muito difícil para ele também, mas ele conseguiu se impor, cada vez tem mais confiança. Ele respeita os mais antigos, mas toma as decisões sozinho. Também foi subestimado, como seu pai, mas eu trabalhei muito com ele e eu sei que ele é competente. 

Koichi Toheï

Ah, é um pouco especial Koichi Tohei. Eu gostaria de fazer alguns cursos com ele agora. Na época não gostava do que ele fazia, porque eu tinha a impressão de que ele gozava da nossa cara. Eu ia aos seus cursos quando ele estava no Aikikai, mas o lado - "levante o braço, esta vendo, estou dobrando ele. Pense no seu ki, não consigo mais dobrar" - eu não gostava, porque sabia que não era verdadeiro. Mas é alguém muito forte, não se pode duvidar disso .

Seïgo Yamaguchi

O gênio dos gênios, o homem universal, uma inteligência rara que todo mundo reconhece. 

Nobuyoshi Tamura

Muito respeito pelo trabalho que ele fez na Europa. E muito respeito pela técnica dele. Por outro lado eu acho que ele não esta acompanhado das pessoas certas. 

Masamichi Noro

Um homem excepcional. Nunca fui aluno do mestre Noro porque eu treinava com Nakazano sensei e havia uma rivalidade entre eles. Mas hoje somos amigos, realmente muitos amigos. Ele até falou para o Doshu "Tem que dar o 8º dan para Christian!" (risos). É um percurso excepcional. Quando se sabe do acidente que ele teve, de onde ele veio e o que ele fez, é formidável. Ele criou o sistema dele, mas eu acho que no fundo o que ele gosta é o Aikido. E ele só pensa numa coisa, ele me fala o tempo todo, a família Ueshiba. Realmente alguém excepcional. 

Morihiro Saito

Eu assisti às suas aulas quando ele estava no Aikikai, aos domingos, mas eu o conheço muito pouco. Um grande respeito por ele, grande técnica obviamente. Eu gostaria simplesmente que de vez em quando alguns dos seus alunos fossem um pouco menos radicais. É verdade que Saito sensei achava que estava certo, mas de qualquer forma, todos os senseis que eu conheci achavam que estavam certos! (risos). Em abril tenho um seminário nos EUA convidado pela Patricia Hendricks. Ela é muito aberta, tem um Aikido muito dinâmico que desenvolveu a partir das bases ensinadas pelo Saito sensei. Infelizmente, eu acho muitas vezes o trabalho dos alunos dele muito rigoroso, mas estático demais. 

Mitsugi Saotome

É um bom amigo, a gente passou muito tempo juntos. Ele me deu muitas aulas particulares, principalmente o jo. Tudo o que eu aprendi sobre jo vem dele. Para mim é um dos mais bonitos Aikido no nível da forma. Mas durante um tempo eu me afastei um pouco dele porque não fazia mais Aikido, tinha se perdido na sua busca. Ele pedia para fazer kote gaeshi recebendo chudan tsuki com o pé, coisas assim. Mas ele se encontrou, e quando faz Aikido, é o melhor. 

Kazuo Chiba

Uma pessoa muito agradável, uma qualidade técnica excepcional. Mas um temperamento forte e uma prática que, às vezes, parece ter uma violência desnecessária. 

A sua melhor lembrança no Aikido.

Minha melhor lembrança é também a pior, foi quando recebi o 7º Dan, do Doshu. É uma lembrança muito bonita, um momento muito emocionante. Ele tinha me convidado à sua casa, éramos quatro, ele, o seu filho Moriteru, meu filho e eu. Ele estava entubado, passamos cerca de uma hora juntos e eu sabia que seria a última vez que estaria com ele. É uma lembrança bonita porque vinha dele, uma lembrança ruim porque eu sabia que não ia mais vê-lo. 

O 7º dan em si não tinha importância. Sabia que um dia eu seria 7º dan. O que me tocou foi o reconhecimento, saber que, sim, de fato, para um ocidental era possível se tornar um verdadeiro 7º dan. Eu estou dizendo verdadeiro para falar do Aikikai, não o 7º dan de um grupo que se auto atribui diplomas. 

A sua lembrança mais engraçada no Aikido.

Oh tem várias. Um dia eu estava em uma demonstração com o Doshu e fiquei esperando em seiza por 20 minutos. Quando ele me chama eu levanto e... Eu caio na frente dele, não consegui mais levantar. Não tinha mais sangue nas pernas. Uma outra vez, durante uma demonstração, havia um senhor idoso que tinha bebido um pouco demais antes. Ele não percebeu que tinha colocado os dois pés na mesma perna do hakama! Toda a demonstração foi assim, foi legal. 

Você tem um novo DVD, poderia falar disso um pouco?

O novo DVD vai se chamar "Aplicações". É uma coisa nova comparada com os suportes de ensino clássico. Tem dois enfoques. 

Na primeira parte, começo com técnicas apuradas, executadas de forma fluida, que vou variando. A idéia é mostrar coisas novas sobre um ângulo novo. 

Na segunda parte, vou explicando como se pode trabalhar com ataques tais como mae geri (chute de frente), mawashi geri (chute circular), etc. Não volto sobre as técnicas básicas, que consistem em agarrar a perna e projetar, mas proponho um trabalho baseado nos pivôs, nas esquivas. A idéia era mostrar para um aikidoka como ele pode buscar na sua arte as respostas para tipos de ataques freqüentes no mundo das artes marciais atuais, e muitas vezes deixados de lado na nossa prática. 

Uma solução, por exemplo, sobre um mae geri, seria tirar a perna que ataca e iniciar um golpe no rosto do parceiro, que vai reagir e permitir a aplicação de kote gaeshi. 

Não é um trabalho que todo mundo vai fazer, mas acho que vai responder a muitas perguntas no mundo do Aikido, onde muitos praticantes se sentem sem solução nesse tipo de situação. 

Depois, fica difícil de trabalhar isso regularmente no dojo, por falta de tempo, tem que focar nos fundamentos. Porque para trabalhar esse tipo de técnica, tem também que aprender esses ataques, e uma parte dos praticantes não está interessada nisso. Mas com esse DVD, os aikidokas terão as ferramentas necessárias para entender esse trabalho. 

Obrigado Christian Tissier para suas respostas e seu tempo. 

Esse artigo foi traduzido com a amigável autorização de Leo Tamaki que realizou a entrevista e que a publicou originalmente no jornal Tsubaki em francês. Merci Leo! 

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