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O-Sensei
Morihei Ueshiba
(1883-1969)
Fundador do Aikido

ENTREVISTA

 

com
Sensei Luís Antônio Gentil
por Christiaan Oyens

 


O INÍCIO


Sensei, quando foi que voce começou a praticar o Aikido?

Sensei Luis Gentil: Foi em 1982, e quem me apresentou ao Aikido foi Julio Galhardi.

Julio, que hoje é seu aluno e o primeiro faixa preta que voce formou...

Exatamente. A gente estudava no mesmo colégio, naquela época era o São Marcelo, se não me engano. Começamos a praticar capoeira muito jovens, com quatorze ou quinze anos. Eu treinava em uma academia, e ele em outra. Em certo momento, a capoeira não estava funcionando bem para a gente. Eu resolvi parar e ele já tinha começado a treinar Aikido, com o Mestre Clóvis. Ele ficou apaixonado por aquela arte marcial. Levou a família, levou os amigos... e a mim, também, como grande amigo dele. Ele me disse: "vamos lá treinar Aikido"... E eu era muito ressabiado, era patriota, fazia capoeira, uma luta brasileira. Houve muita resistência de minha parte. Só que ele insistiu tanto, que me convenceu a assistir a pelo menos uma aula. Depois, fui assistir a uma segunda aula, e só na terceira vez é que comecei a treinar Aikido. Nunca mais parei.

Conte-nos um pouco sobre o Mestre Clóvis.

O que me impressionava no Mestre Clóvis era o seu enorme carisma. Uma pessoa com um conhecimento muito grande sobre o Aikido - sabia muito sobre a filosofia e sobre a energia, sobre o ki. E sabia, também, passar esses conhecimentos para os seus alunos. O que me encantou, assistindo ao Aikido nas primeiras vezes, não foi tanto a técnica - ao ver pela primeira vez, você não entende muito bem o que está acontecendo e acha os movimentos circulares bonitos e tal, mas você não compreende aquilo - o que realmente me encantou, de início, foi como ele "passava" o Aikido. Ele sempre falava que o Aikido era uma arte marcial não competitiva, em que você podia trabalhar a sua energia para tentar ser uma pessoa melhor. Como arte marcial não competitiva, o Aikido permite a você trabalhar a sua mente, seu corpo e seu espírito.

Ele era muito cativante e conseguia contagiar as pessoas com seu entusiasmo. . Então, um dos grandes atrativos, que me fez começar, foi essa força cativante que ele tinha, de conseguir passar para você o kimochi, a energia do Aikido, através das suas palavras. Claro que você não aprende só com palavras, mas é algo que vai crescendo dentro de você. Toda aula ele dizia as mesmas coisas, mas as repetia de várias formas... Lembro que, algumas vezes, fui a casa dele e vi que ele tinha uma biblioteca incrível de Aikido, e vídeos também. Aquilo tudo havia se tornado intrínseco a ele. Se você ler os livros, terá uma idéia do que ele falava o tempo todo. As palavras de O-Sensei são exatamente como ele as repetia em aula.

O-Sensei falava que, se uma pessoa lhe atacar, ela não está apenas lhe atacando, e sim atacando o universo. Então, ela já perdeu, porque você é o universo. Há palavras que ao serem passadas para as pessoas, fazem com que elas se tornem mais calmas e mais relaxadas. O Mestre Clóvis tinha principalmente esse dom, o dom da fala, da palavra.

 

JAPÃO


Um momento determinante na sua vida foi a sua ida ao Japão. O que o motivou para essa viagem?

Eu estava há quatro anos treinando Aikido e tinha conseguido passar para a minha família a paixão que eu sentia. Era uma paixão tão grande que a família inteira me deu força para arriscar e ver se era realmente isso que eu queria para a minha vida. Houve, então, uma movimentação geral dentro de casa para convencer o meu pai a me pagar uma passagem, para que eu ficasse por lá um tempo para treinar Aikido. Fui com uma passagem de ida e volta, para passar um ano, e acabei ficando quinze [risos].

 

 

Conte um pouco sobre a sua chegada e seus primeiros dias no Japão.

Foi em 1986. Eu fui tão ao deus-dará, quer dizer, eu estava tão apaixonado pelo Aikido, que nem levei o endereço do Hombu Dojo. Aliás, eu não levei endereço algum!... Minha irmã conhecia um argentino que fazia Ioga no Oki Ioga Dojo. Esse dojo ficava em Mishima, umas três a quatro horas de Shinkanzen (trem-bala) de Tokio. O argentino disse que ali havia um mestre muito antigo que tinha estudado com O-Sensei. Imaginei, então, que ele daria aula todo dia... Eu não sabia que aquele era um dojo de Ioga. Na verdade, antes de chegar, eu só tinha estudado cinco meses de japonês e cinco meses de inglês...

Voce, então, não tinha nem conhecimento da existência do Hombu Dojo?

Não tinha nada!... Eu podia ter perguntado antes para o mestre Clóvis, mas eu estava tão "no ar" que fui no "vâmo embora!"... Ao chegar ao aeroporto de Tokio, encontrei uma japonesa que falava um inglês razoável. Como eu não entendia nada do que estava escrito, perguntei como ir para esse lugar. Ela então me pegou pela mão e me ajudou a comprar a passagem do Shinkanzen. Eu entrei no trem e fui parar em Mishima. Ali, peguei um táxi, mostrei o endereço para o motorista... e pronto: ele me deixou na academia. Só que aquilo era um dojo de Ioga, e eu fui para treinar Aikido!... O sensei só vinha uma vez por semana, e aquilo era um tipo de spa para as pessoas melhorarem, trabalharem Ioga, o corpo; a alimentação era macrobiótica, e acordava-se rs cinco horas da manha. Para mim, era um suplício! Eu, aqui, comendo de tudo, arroz, feijão, carne; lá, eles servindo umas miniporções de arroz integral... Quase que eu morro de inanição! [risos] E o que se fazia, quando se chegava, era dar todo o seu dinheiro e o seu passaporte para a pessoa encarregada, que guardava tudo num cofre. Conclusão: eu não tinha dinheiro nem para comer. Só as coisas que serviam ali. Era um lugar para onde as pessoas de todas as partes do Japão vinham para passar dois ou três dias ou um final de semana. Era muito caro. E eu, meio perdido, acabei ficando ali uma semana. O começo foi muito barra-pesada.

E depois dessa academia, o que aconteceu?

Após aquela primeira semana, conversei com algumas pessoas e disse que desejava ir para um dojo de Aikido. Recomendaram-me a academia de Mochizuki Sensei, um dos alunos de Jigoro Kano, encaminhado pelo fundador do Judo moderno para O-Sensei, para que treinasse Aikido. Fui encaminhado para a academia dele, que ficava em Shizuoka. Só que no dojo dele, não se treinava só Aikido - tinha Aikido, Judô e Karatê, tudo mais ou menos misturado. Passei uma semana ali, mas foi um choque. No Brasil, havia aprendido sobre a filosofia do Aikido, sobre movimentos circulares e como não usar força; lá, os movimentos eram traumáticos. Passei uma semana, agradeci a todos e voltei para o dojo de Ioga. Conheci, então, um inglês, que me ofereceu sua casa, caso eu tivesse algum problema. Não deu outra - afinal, não queria ficar nem no dojo de Ioga, nem no que tinha passado uma semana... Eu queria uma academia onde se treinasse o Aikido.

 

Fui bater r porta do inglês, que morava em Omori. Eu lá, de mala e cuia, ele abre a porta e me olha com uma cara de quem diz: "não acredito, ele veio mesmo!" [risos]. Fiquei durante alguns dias e acabei procurando um centro de informações para turistas estrangeiros. Lá encontrei uma lista com informações sobre academias de artes marciais e, na seção de Aikido, procurei o lugar onde haveria mais aulas, mais senseis e, ao mesmo tempo, fosse o mais barato. Tudo isso encontrei na mesma fundação: o dojo central, ou Hombu Dojo.

Como fez para se sustentar?

Eu cheguei lá em agosto. Em setembro, comecei o Aikido. Fiquei mais ou menos até o fim do ano sem trabalhar, só treinando. Em dezembro, comecei a morar em uma casa para estrangeiros, um Gaijin House, e ali aproveitei para aprimorar meu ingles. Conversava com todos, com pessoas de todas as partes do mundo, muito afáveis, e era tudo muito divertido. Falei, entao, que precisava trabalhar, arrumar um emprego... Eu tinha medo de gastar o dinheiro que havia trazido, nunca tinha gerenciado dinheiro na vida... Um rapaz de Gana, que também morava ali, me disse que me arrumaria um emprego no lugar onde trabalhava: um karaoque. Ele me apresentou ao dono, e entao comecei a trabalhar ajudando um australiano que fritava lingüiças e servia uísque para os clientes. Acabei ficando seis meses, trabalhando duas a tres vezes por semana, de seis rs onze da noite; voltava para casa e de manha cedo ia para o treino.

E os problemas de adaptaçao com a nova língua e cultura?

Eu cheguei lá em agosto. Em setembro, comecei o Aikido. Fiquei mais ou menos até o fim do ano sem trabalhar, só treinando. Em dezembro, comecei a morar em uma casa para estrangeiros, um Gaijin House, e ali aproveitei para aprimorar meu inglês. Conversava com todos, com pessoas de todas as partes do mundo, muito afáveis, e era tudo muito divertido. Falei, então, que precisava trabalhar, arrumar um emprego... Eu tinha medo de gastar o dinheiro que havia trazido, nunca tinha gerenciado dinheiro na vida... Um rapaz de Gana, que também morava ali, me disse que me arrumaria um emprego no lugar onde trabalhava: um karaoquê. Ele me apresentou ao dono, e então comecei a trabalhar ajudando um australiano que fritava linguiças e servia uísque para os clientes. Acabei ficando seis meses, trabalhando duas a três vezes por semana, de seis rs onze da noite; voltava para casa e de manha cedo ia para o treino.

 

DE VOLTA AO BRASIL

Após quinze anos no Japao, sensei, como foi a sua volta? Por que resolveu voltar para o Brasil?

Durante os últimos quatro anos, antes do meu retorno definitivo, eu vinha visitar o Brasil pelo menos uma vez por ano. Durante essas visitas, eu encontrava com as pessoas que tinham treinado comigo. Colegas como o José Ortega, Zé Carlos, o Júlio... Sempre que voltava, procurava essas pessoas. Na primeira vez, fui ao dojo do mestre Clóvis. Dei aula lá e treinei com o pessoal. Quando voltei dois anos depois, o mestre Clóvis já havia falecido. Fui, então, ao dojo do Ortega, e ele me convidou para dar uma aula. Toda vez que retornava, acabava dando alguma aula. As pessoas me perguntavam quando eu voltaria para o Brasil e eu sempre respondia: "Não! Eu não quero dar aula, eu quero só treinar Aikido, eu adoro treinar, praticar Aikido...". Só que aquilo nunca saía da minha cabeça. Eu falava sempre que não queria, mas aquilo ficava... A minha paixão é o Aikido. Nos últimos anos que passei no Japão, parece que as coisas foram tramando o meu retorno.

 

Depois de alguns anos no Japão, fiz um grande amigo, chamado Anji, um japonês que falava português. Era um floricultor que adorava samba, pagode, e quando você entrava no seu carro era samba o tempo todo. Ele foi aprendendo português ouvindo samba e me perguntando coisas. Nós nos tornamos grandes amigos, e ele me deu uma força incrível. Ficava me perguntando quanto tempo iria ficar no Japão, e depois de cinco anos, brincando, lhe disse que passaria quinze anos, e foi exatamente o tempo que acabei ficando. Tudo parece ter conspirado para a minha volta. Meu pai também não estava muito bem, e isso foi determinante para o meu retorno. Queria ficar um pouco com ele.

Foi difícil a readaptação? Houve algo que tenha lhe chamado a atenção?

Não, foi tudo tranquilo. Uma coisa que me chamou a atenção foi que, no Japão, as pessoas são muito educadas. Qualquer coisinha eles agradecem ou pedem desculpas... E aqui não existe isso. Lá, por exemplo, se você está num restaurante, as pessoas estão ali única e exclusivamente para lhe servir. Eles ficam super "ligados". Basta você levantar o olho e já chega logo alguém para te servir, e não param de te agradecer. São sérios e prestativos. Aqui já é o oposto. Você está num restaurante e os garçons estão conversando... Tudo você tem que pedir dez vezes...

Como voce sentiu a transição de um aluno obsessivo, que treinava tres a quatro aulas por dia, para o papel de professor?

Bom, em primeiro lugar, eu treinava três a quatro horas por dia quando cheguei. Depois de alguns anos, eu comecei a trabalhar. Passei a treinar, em média, duas horas por dia. 
Mas eu vejo isto como um progresso, porque depois de você treinar muito Aikido, quando você começa a dar aulas, você tem umas "sacadas" e começa a descobrir o seu próprio Aikido. Você começa a perceber como passar para os seus alunos o que você está sentindo. É um outro foco. No começo, eu acho que era um pouco rígido - quando eu tinha acabado de voltar do Japão, não era muito de falar nada, era só treino. Foi assim que aprendi: lá as pessoas quase não falam durante a aula. Hoje em dia, rs vezes, um professor ou outro fala um pouquinho sobre a energia ou sobre como mover o seu centro. Antigamente, os mestres não davam um pio - era treino o tempo todo.

 

Aqui, com as pessoas que estão começando, você tem que encaminhá-las um pouco, para lhes mostrar uma intenção correta ou, até mesmo, para que elas não se machuquem.

 

 

Nao sentiu falta dos treinos no Japão?

Eu senti um pouco. No começo eu tinha poucos alunos aqui, talvez três a cinco pessoas no dojo. Então, eu treinava também. Hoje em dia, como as turmas estão grandes, fica um pouco mais difícil. Mas sempre que o número de alunos fica ímpar, eu treino também.

Realmente faz parte do seu estilo, quando está dando aula, você circular pelo tatame e treinar com todos. Isto é uma postura particular ou você aprendeu isso observando outros senseis?

Não. Há senseis e senseis. Há vários senseis no Hombu Dojo. Alguns vão de aluno em aluno... Só que, muitas vezes, as aulas têm mais de sessenta pessoas!... E então, normalmente, ele pega as pessoas que estão mais frequentemente nas aulas ou as que ele conhece.

Ou para corrigir?

Sim... Mas normalmente é treino mesmo, porque ele está mostrando o movimento dele. E lá quase todos são faixas pretas. Os senseis aprendem treinando com os alunos, porque cada aluno é diferente. A questão é como trabalhar o aluno e como o aluno pode aprender a trabalhar e a perceber o movimento.

Já ouvi alguns senseis criticarem os professores que se acomodam e param de desenvolver seu Aikido. Voce sentiu alguma queda em seu rendimento como praticante?

Não. Inclusive, a última vez que fui ao Japão, treinei com várias pessoas, entre elas o Bruno, um professor que também morou no Japão vinte anos e agora leciona na França, fazendo parte da federação francesa. Ao treinarmos, ele comentou: "puxa, você está dando aula e está super-relaxado!... Parabéns, pois quando as pessoas começam a dar aulas elas ficam muito duras...". Senti-me lisonjeado com o comentário, porque, rs vezes, realmente, quando começam a dar aula, as pessoas vestem uma capa de que são "os senseis"!... E travam - ficam como uma pedra. Para mim, a flexibilidade é muito importante: é o que te permite sentir a sutileza. É claro que existe o treino para você treinar forte, mas você tem que sentir como é cada pessoa, tem que saber como trabalhar isso.

 

O CÍRCULO DE AIKIDO

Por que, após a sua volta, voce quis ficar independente em vez de se filiar a alguma associação já existente?

Bom, o meu mestre foi o Mestre Clóvis, e ele faleceu. Ao regressar ao Brasil, depois de quinze anos no Japão, os meus mestres são os meus senseis japoneses. A minha casa é o Hombu Dojo.

O interessante é que você tenha seu mestre, como eu tenho no Hombu Dojo. Mas, mesmo assim, eu vou a qualquer seminário. Você tem que ter respeito por todo mundo, porque todos querem chegar ao cume da montanha, e há vários caminhos. Então, não há problema.

Por que decidiu chamar seu grupo de Círculo de Aikido?

Foi uma homenagem ao Mestre Clóvis. Quando eu treinava com ele, o grupo já se chamava Círculo de Aikido. Além disso, o nome já diz tudo: círculo, esfera... Tem tudo a ver com Aikido - os movimentos circulares. No Aikido, com o rolamento, você se torna uma bola. Se você se tornar uma bola, não tem arestas e, se você não tem arestas, não se machuca. O círculo representa essa harmonia. Mas o principal motivo de usar o nome é por respeito, e é uma homenagem ao Mestre Clóvis.

Que planos voce tem para fazer este grupo crescer?

Bom, em primeiro lugar, para fazer o grupo crescer, você tem que formar alunos. E isso é uma coisa muito delicada. Da mesma forma que, quando estava no Japão, falei que em quinze anos eu voltaria para o Brasil, eu disse, ao voltar, que em cinco anos a gente montaria o nosso grupo. Este ano (2006), estaremos completando cinco anos; então, o nosso grupo está caminhando. Está aumentando o número de alunos, temos já três faixas pretas, talvez no ano que vem tenhamos mais dois faixas pretas, talvez daqui a uns dois anos, mais dois ou três... As pessoas vão começar a se ajudar e, com isso, ajudar a aumentar o nosso grupo.

 

 

Também tenho planos de viajar e fazer seminários fora do Rio de Janeiro, em outros estados. Daí que não se trata só do nosso grupo. O nosso grupo é o espaço em que a gente vai se ajudar a crescer, mas há pessoas em outros lugares que também estão interessadas, e talvez eu possa ir para estes lugares para treinar e mostrar um pouco do que aprendi no Japão.

 

ENSINO E FILOSOFIA DO AIKIDO

Voce defende um Aikido mais suave, de movimentos circulares, harmoniosos ou um Aikido mais vigoroso, marcial e contundente?

O-Sensei dizia que, quando ele dava aula para um grupo de dançarinos, ele usava movimentos mais circulares e, quando ele dava aula para as pessoas das forças armadas, era um Aikido mais vigoroso. Por isso, depende muito da situação, com quem você está treinando e para quem você está ensinando. Se você treina com crianças, você não pode ensinar uma coisa muito rápida, pois elas podem se machucar - você tem que ir devagar. Se for um grupo de adolescentes, você também tem que ter cuidado com o quanto pode ensinar para eles.

Você tem que descobrir o espírito de cada um e se você realmente pode ensinar tudo para aquela pessoa ou não. De repente, ela pega a técnica aqui e vai machucar alguém lá adiante. O Aikido é vigoroso se você quiser treiná-lo assim, mas, primeiro, você tem que aprender a sutileza do Aikido. O Aikido é feito de paradoxos, é yin e yang, positivo e negativo, você pode estar dentro da pessoa, como você pode estar fora. Você pode trabalhar os dois lados, ou seja, você tem que estar preparado para tudo.

O-Sensei dizia: "O Aikido não é força", e as pessoas continuam repetindo: "Aikido não é força, não é força...". Acontece que, quando você vai treinar com uma pessoa muito mais velha que você, com muito mais tempo de treino, ela vai te travar e você sente que ela está fazendo força, mas você não consegue sair dali. Aí você encontra um paradoxo. Não é força, mas para sair você recorre r força... Então, o teu corpo está sempre lutando com aquele paradoxo. O que é? Onde é que está? Como é que a gente vai fazer isso?... Mas o bonito é você continuar tentando e nunca desistir. Não é ficar zangado porque a pessoa está te bloqueando. Qualquer um pode bloquear, o mais velho, o mais novo. A pessoa que está começando Aikido é crua, ela é ingênua. Então, se ela te bloquear, ótimo, você tenta sair de outra maneira. É a coisa mais gostosa deste mundo você estar sempre aprendendo e reaprendendo. Se você sabe tudo, então não precisa fazer Aikido, não é?... Claro que você pode falar: "Ah! Ele está me bloqueando!", e recorrer a um atemi... Mas isso é para situações radicais. Você não precisa encarar um bloqueio como um confronto!... Aquilo é um amigo te dizendo que, de repente, alguma coisa está errada. Então, como é que você vai sair dali?... Você é quem provavelmente está usando força demais... Então descubra outro caminho!...

 

Você deve lembrar que o Aikido é sobre equilíbrio, sobre como você pode conseguir alongar o seu parceiro ou entrar no movimento no tempo certo. Há várias coisas que você tem que trabalhar ao mesmo tempo.

Tem alguma técnica preferida, Sensei?

Acho que houve várias fases da minha vida, treinando Aikido, em que tive diferentes técnicas preferidas. Dependendo do sensei com quem eu treinava, eu ficava assim: "Opa! Essa é a boa!".

Eu adoro kokyu. Kokyu é projeção, você não entra em choque, você deixa tudo passar. Gosto muito de kokyu. Irimi nage é uma técnica incrível, mas o tempo dela é difícil, também. A gente faz e refaz, faz e refaz e está sempre buscando. Kokyu é uma técnica mais natural. Mas O-Sensei dizia que não adianta você fazer milhões de técnicas... Se você fizer uma perfeita, já está bom.

Hoje em dia eu faço mais técnicas do que fazia no Japão. No Japão, se um sensei gosta de katatedori, só vai treinar, na aula dele, katatedori. Há outros que preferem ushiro ou shomenuchi... Mas existe, também, uma metodologia no Hombu, que consiste em cada mês se fazer uma técnica ou um ataque diferente. Depende de cada sensei. Para os alunos mais novos, tem isso. Os mais velhos tem mais liberdade para, durante o treino, praticar variações.

Agora eu estou ensinando sozinho para várias pessoas... é um pouco mais difícil de trabalhar essa metodologia. Então, uma semana eu faço uma coisa, na seguinte, faço outra. Não é só fazer o que eu gosto.

 

Katatedori é muito bom! Os parceiros já estão em contato e precisam aprender a relaxar... Mas isto demora muito tempo. Alguém lhe segurou!... e sua reação é ficar em pânico... Mas deve ser exatamente o oposto: você precisa relaxar e trazer para o movimento, para o seu centro. E isso demora muito tempo para se aprender. Só fazendo e refazendo, fazendo e refazendo...

 

 

Qual a sua opinião sobre o uso de armas, como a espada e o jo, nos treinos de Aikido?

O-Sensei treinou muitas artes marciais com armas, entre elas lança, espada e bastão, como também várias artes de uso das mãos vazias. O Doshu Kishomaru estabeleceu o foco em um Aikido em que só se usam as mãos. No Hombu Dojo não se usa muito jo ou espada - o foco é no taijutsu. É uma coisa delicada. Agora, eu acho que, treinando armas, você começa a trabalhar mais o teu centro. Mas não se pode só treinar armas, porque aí você fica com os braços enormes, usando muita força, e talvez isto lhe prejudique.

Você pode treinar movimentos como shomenuchi ou yokomenuchi ou tsuki, e isso lhe dará mais criatividade para treinar o Aikido. Uma vez que você aprende o básico, pode treinar sozinho. O importante é você saber o básico. A base do Aikido vem da espada. Então, com a espada, você pode estudar os movimentos dos pés... entender como caminhar. O shomenuchi, para você trabalhar o irimi nage, também é a movimentação da Mao da espada. Tudo está interligado.

 

Eu mesmo ainda estou descobrindo como trabalhar com a espada e o jo. Treinei um pouco com o Mestre Clóvis antes de ir para o Japão e lá treinei com Shibata Sensei. Eu ainda estou descobrindo... E não posso ensinar para alguém o que ainda estou descobrindo. É uma descoberta minha, do meu treino pessoal. Aos poucos, a medida que eu tenha uma bagagem de conhecimento, aí, sim, vou poder ensinar para as pessoas. Por isso é que é delicado.

 

 

O-Sensei falava de assuntos espirituais de uma forma muito complexa para a cultura ocidental interpretar. A religião Omoto Kyu que ele seguia era difícil até para os alunos japoneses entenderem. Como voce trabalha o seu lado espiritual?

Todos nós fazemos parte do universo. Nós somos o universo. Todos fazemos parte de um todo. O meu trabalho espiritual é diário - cada vez que eu estou praticando e me relacionando com diferentes pessoas, eu estou trabalhando meu Aikido. Estamos tentando trabalhar diariamente o nosso Aikido não só no tatame, no dojo, como também fora dele.

O-Sensei tinha um ditado em que ele dizia que "não adianta você só meditar num templo durante anos a fio, se você não tem a experiência do lado de fora também". Não adianta você ficar ajoelhado ali e não estar ajudando em nada lá fora.

 

No Aikido nós estamos praticando o nosso lado espiritual quando treinamos com o parceiro, sendo gentil com a pessoa, encaminhando a pessoa, anulando esse ego enorme que nós temos. Há em nós a tendência de sentir que somos o máximo, os maiores, os mais fortes, mas o excitante é tentarmos ser cada vez mais humildes. Temos que ser tranquilos e passar coisas boas para as pessoas.

Voce trabalha o seu lado espiritual simplesmente treinando...

Simplesmente sendo. É você acreditar que faz parte de um todo. O-Sensei dizia que você é o universo porque você faz parte de um todo. Cada grão de areia é o universo. O importante é tentar ser cada vez melhor - melhor espiritualmente dentro de você mesmo. É claro que é um longo caminho. Buddha chegou lá, Jesus Cristo... Talvez, O-Sensei... Estamos todos tentando chegar lá, e é um longo caminho. É como subir o Monte Fuji. E há vários caminhos para se chegar lá.

 

Nós erramos o tempo todo, mas é através dos nossos erros que nós aprendemos. Por que é que não é interessante, no Aikido, usar palavras o tempo todo para explicar como fazer as técnicas? Isto é algo delicado, porque você quer ajudar os seus alunos. Mas se você fica explicando o tempo todo como é que se faz, eles só vão aprender aquele caminho. Então, é interessante você errar e aprender com o erro, não com a explicação. Quer dizer, se você for bloqueado, você tem que descobrir um outro caminho, com cada erro. A gente cai e levanta, cai e levanta, cai e levanta... É assim que a gente vai aprendendo...

Qual a importância, em sua opinião, do uso de etiqueta no dojo?

Eu acho de suma importância. Isso a gente leva para a vida. A palavra dojo descende do budismo, "lugar de iluminação", um lugar onde os monges rezavam e pediam paz e iluminação. É um lugar onde nos concentramos em aprender alguma coisa, e temos que ter muito respeito por este lugar. Consequentemente, temos que ter respeito com as pessoas que frequentam este lugar. Toda vez que a gente treina, está aprendendo alguma coisa, você está se doando e o parceiro, também. Aikido é dar e receber o tempo todo - isto é o mais importante. Se você só dá, não vai dar certo e, se você só recebe, também não.

E, fora do dojo, como é a sua relação com seus alunos?

Eu sou muito apegado aos meus alunos... é como se fosse a minha família. Talvez eu seja apegado demais. [risos] No Hombu Dojo, a distância é muito grande entre os mestres e os alunos. Pouco antes da minha volta é que eu tive mais contato com todos os mestres. Lá, leva-se muitos anos para se falar com o mestre. Você pode treinar numa aula uma eternidade, que continua existindo sempre aquela distância. Principalmente com os japoneses - eles impõem a distância.

Tem a ver com o sistema hierárquico das artes marciais?

Também. A hierarquia é algo inerente rs artes marciais, mas tem mais a ver com a própria cultura japonesa. Eles realmente não deixam você chegar tão perto... Mas eu sou brasileiro. Então, quando eu estou ensinando Aikido, eu quero entender as pessoas. Se eu entender as pessoas, vou poder ajudá-las cada vez mais, e elas também podem me ajudar.

 

Eu acho interessante poder ser completamente verdadeiro. O que a gente está tentando, no Aikido, é ser cada vez mais verdadeiro. Se eu me fechar, fizer um círculo em minha volta e não deixar ninguém penetrar, todo mundo vai ver só uma aparência minha. Só que eu quero mostrar a minha verdadeira face. Cada um tem várias faces para cada lugar que frequenta. No Aikido, a gente está se lapidando o tempo todo. Quem é você realmente? Estamos nos livrando de várias cascas, não é?... É como se estivéssemos lapidando uma pedra para ela virar uma joia, um diamante.

Conte alguma experiência curiosa ou engraçada que tenha acontecido no Japão...

Na época que fui morar na casa do inglês, eu tinha passado apenas uns três dias, e o proprietário disse que ali não podia morar mais de uma pessoa: eu tinha que procurar um outro lugar para me hospedar. Antes disso, fui ao Tourist Information Center para saber sobre os dojos de Aikido, voltei para a casa do inglês e passei mais uma noite com o objetivo de, no dia seguinte, ir cedo para o dojo central de Aikido. Na manha seguinte, me encontro em uma estação enorme, em frente ao Studio Alta, em Shinjuku, cheio daquele pessoal religioso; estou andando e chega uma menina do meu lado que me diz: "você hoje ganhou um grande premio!". E eu perguntei: "como assim?!...". E ela, de novo, falou: "você ganhou um grande presente! Vem comigo que eu vou te dar um presente enorme!...". E eu, que era muito ingênuo, acabei indo com ela.

 

Pegamos um trem que demorou uma hora para chegar e acabamos num templo de uma religião qualquer. Entramos na nave central, chegaram uns padres e um me perguntou quantos irmãos eu tinha. Respondi que tinha dezessete, e o padre falou: "então, você tem que ser batizado dezessete vezes!". Aí, me batizaram com água dezessete vezes!... [risos] Eu louco para sair dali, e o padre me disse para esperar, que um rapaz que falava português ia vir conversar comigo. Ficaram me catequizando durante mais uma hora... Depois, tinha a viagem de volta no trem, e quando fui ver não tinha mais tempo para chegar ao dojo central. Voltei para a casa e só no dia seguinte consegui ir para o Hombu Dojo. [risos]

Como é que voce encara seu crescimento dentro do Aikido? Que ambições voce cultiva como praticante e como mestre?

Ambição?... Não tenho ambição. [risos] Quero treinar Aikido o resto da minha vida. Fazer, também, com que o nosso grupo cresça cada vez mais e que as pessoas se apaixonem pelo Aikido cada vez mais... que descubram o que eu descobri através dessa arte... que descubram como é bom treinar Aikido, como você acaba criando um vínculo com as pessoas que treinam e como isso se torna uma coisa gostosa, uma família. Gosto de ajudar a tornar as pessoas mais saudáveis e de vê-las de bem com a vida.

Você me perguntou se o Aikido deve ser mais sutil ou mais firme... O importante é você poder criar a sua sensibilidade. Quando você quiser treinar forte, você deve pegar alguém do seu nível para treinar forte. Você pode treinar firme. Se você quiser treinar suave, você também pode treinar suave. Você tem que conhecer os dois lados da moeda. Agora, se você usar força, o mais forte vai ganhar - e isto não é Aikido!

 

Meu sonho é ver todo mundo que iniciou a prática continuar a fazer Aikido para o resto da vida. Quero ajudar a difundir esta arte cada vez mais, porque ela é, em si, uma coisa muito bonita.

Obrigado pela entrevista Sensei.